Mudar a escala de valores para mudá-lo todo

Mudar a escala de valores para mudá-lo todo

Vivemos num tempo histórico muito interessante pelos câmbios e as contradições e, não estou a falar da política partidária e institucional, estou a falar da sociedade e da sua escala de valores. Até a chegada da crise (precrise) do 2008 as coisas na sociedade estavam claras e pelo tanto o que era bom e o que era ruim debuxava-se com linhas mais definidas e grossas. Case 8 anos depois todo é muito confuso. E é confuso porque na atualidade a escala de valores velha perdeu muita da sua utilidade e tampouco há uma nova que a venha substituir. A velha escala sustentava-se nas bondades do progresso, do avance, da modernidade. Sustentava-se em definitiva no crescimento continuo como a maneira de ir a melhor. É certo que o de ir a “melhor” muitas vezes trazia aparelhado “danos colaterais” e grandes injustiças, mas estas eram agachadas ou não tidas em conta pelo bem dos fins que nos estava levando cara o paraíso da modernidade.

Atualmente já não há crescimento e boa prova são os informes económicos que nos indicam que mesmo a nível mundial há estancamento ou incluso “retrocesso” da economia, o que esta provocando uma forte merma do intercâmbio material a nível planetário. Isto quer dizer que o processo de globalização começou a se deter. Não posso deixar de citar neste apartado a desfeita que se vive na mundo da extração de petróleo onde o modelo que nos ia salvar da redução inevitável da energia disponível procedente do petróleo convencional quedou em só uma borbulha económica mais. Estou a falar do fracking. Á caída do fracking tampouco podemos deixar de somar a queda acelerada do número de perfuradoras operativas e das inversões de futuro no petróleo convencional. Todo esta desfeita do setor que surte de “sangue” o sistema da economia mundial está sendo habilmente camuflada. O camuflado basea-se entre outras coisas em confundir sobre-oferta com sub-demanda e confundir barris de petróleo brutos consumidos diariamente com a energia neta disponível que chega a sociedade. Todo isto para que a gente não se questione o modelo e todo siga funcionando para maior beneficio das grandes multinacionais.

Na atualidade a escala de valores velha perdeu muita da sua utilidade e tampouco há uma nova que a venha substituir

A ausência do crescimento do passado fiz que muitas pessoas perderam a seguridade num futuro estável e pré-definido que se baseava na possibilidade de lograr metas pessoais (vivenda, alimentação, educação, sanidade, ócio, …) em base a uns sacrifícios mais ou menos conhecidos no mundo do estudo e do trabalho. Hoje em dia nem a capacidade de trabalho, nem a preparação, nem sequer todo isso unido a jornadas intermináveis são garantia de ter ganhado um futuro seguro.

No mundo do crescimento continuo que se deu antes do inicio da precrise do 2008 os direitos individuais e coletivos avançarão, quando menos no papel, ainda que na pratica estes eram eliminados com grande facilidade em aras do progresso e duma melhor vida para todos num futuro sem determinar. Agora encontramos-nos diante da evidencia de que parte dos sacrifícios do passado são os que agora nos deixam sem futuro algum. A megamineria, a contaminação das terras agrícolas, dos rios, dos oceanos, o acrescimento global da temperatura do planeta dificultam uma volta atrás. Mas a volta atrás para procurar um novo caminho não só se vê dificultado pelo péssimo legado material do passado recente, senão que também se encontra com a dificuldade individual e coletiva de ser capazes de assumir novos valores. Valores que têm que começar por assumir o errado da falácia do progresso e da modernidade entendida como a dominação e a esquilmação dos recursos, do médio ambiente, dos animais e das pessoas.

Temos que assumir duma vez que é possível viver melhor com menos porque viver melhor não é ter mais

Os avances nos direitos coletivos e individuais do passado foram conseguidos por meio da revindicação, da luta organizada do povo e para nada são agasalhos das elites com a classe trabalhadora. Esta luta tem que seguir existindo mas deve ser consciente do finito do planeta no que vivemos e, também, ser consciente do cambio de paradigma mundial no que estamos imersos porque de não ser assim toparemos-nos berrando a favor dos refugiados sírios entrementras os exércitos e os governantes dos nossos estados fazem a guerra para roubar as derradeiras toneladas do seu petróleo que nos empregamos nos nossos carros. Ou toparemos-nos reivindicando direitos para as nossas mascotas e outros animais entrementres o nosso modo de vida e as políticas dos nossos governantes aniquila não só a vida de milhares de pessoas com total impunidade, senão também ecossistemas inteiros do nosso entorno mais próximo e do planeta em geral

Temos que assumir duma vez que é possível viver melhor com menos porque viver melhor não é ter mais. Viver melhor e que todos e todas podamos aceder a cobertura das necessidades básicas e não aceder a todo o que imaginemos. Viver melhor é ter mais tempo para viver a vida e não andar correndo por visitar sítios muito afastados. Viver melhor e ter garantido o nosso futuro individual e coletivo e não esta incerteza. Viver melhor e aceitar e respeitar o diferente; colaborar e, sobre todo, desbotar a dominação da natureza, dos animais, das mulheres, das crianças, dos semelhantes. Viver melhor é repartir, porque o reparto evita sofrimento, guerras, descriminações, …..

Compre repensar Galiza, compre repensar o mundo e, sobre todo, compre repensar a nossa escala de valores.

 

Deixa unha resposta

O teu enderezo electrónico non se publicará